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Eng. Agrônomo Wulf Schmidt

D.S. ESALQ-USP

Gerente da Irriger para África

wulf@irriger.com.br

 

Quimigação, por definição, é a aplicação de produtos químicos via água de irrigação. Trata-se de uma importante técnica, ainda muito pouco utilizada pelos produtores irrigantes, que deixam de aproveitar dos vários benefícios operacionais, econômicos e ambientais proporcionados.

Neste artigo vamos apresentar um panorama geral sobre a quimigação, chamando atenção para importantes aspectos relacionados a fatos, mitos e dicas relacionados à mesma.

Na própria definição começamos a quebrar mitos em relação aos sistemas comerciais de barras acopladas aos pivôs centrais como a Pivobarra®, Notliada® e o Accupulse®, que são equivocadamente chamados de quimigação, mas eles não aplicam via água, estes apenas utilizam o pivô como suporte físico.

Mito: fertigação ou fertirrigação é diferente de quimigação. Em verdade, a fertigação ou fertirrigação, é a aplicação de fertilizantes via água de irrigação, que é um produto químico e portanto está inserido na quimigação, assim como fungigação (para fungicidas), herbigação (para herbicidas), insetigação (para inseticidas), e assim por diante.

Dois princípios físicos distintos e importantes regem a quimigação sendo um para fertilizantes e outro para pesticidas.

Para a aplicação de fertilizantes, os mesmos precisam ter como principais características: serem líquidos ou hidrosolúveis (solúveis em água); ter alta solubilidade e estabilidade; não formar precipitados; serem compatíveis com outros produtos, entre outros. Neste caso, no momento da injeção da “calda” buscamos formar uma solução no interior da tubulação.

A solubilidade de um fertilizante sólido é medida em gramas por litro a uma dada temperatura (geralmente 25°), mas cabe lembrar com relação aos adubos nitrogenados, que estes apresentam reação endotérmica quando dissolvidos em água, ou seja vão “gelando”, deste modo a solubilidade vai diminuindo. Um exemplo é a ureia que tem solubilidade nominal de 750 g/L a 25°C, e na prática não é possível solubilizar acima de 500 g/L em função da queda na temperatura.

Dica prática: no caso de mistura de fertilizantes, ex. potássio (K) e Nitrogênio (N), dissolva o nitrogenado por último.

Dica prática: se sua bomba injetora não tiver capacidade de injetar 100kg ureia/ha de uma vez, divida a aplicação em maior número de vezes (5-6 vezes), a quimigação permite isso de forma economicamente viável e sem “amassar” a cultura. Há vários trabalhos mostrando melhor aproveitamento do nitrogênio pela cultura com o maior parcelamento e menores perdas. FATO!

 

Quadro: Perdas por amassamento de cultura com entrada de maquinária

CULTURA % PERDAS
SOJA 3
MILHO 3-5
FEIJÃO 5-8 (até 12 na florada)
TRIGO 5-8
TOMATE 10-15
BATATA 10-15

Fonte: EMBRAPA; IAPAR; IAC,etc.

 

Mito: a aplicação de adubos diminui a vida útil do pivô! Isto ocorre apenas quando não se respeita a solubilidade e o adubo não é totalmente dissolvido, neste caso, o adubo sólido entra na tubulação agindo como areia, “lixando” a galvanização interna e expondo o aço à corrosão química que pode vir até da própria água (alto teor matéria orgânica p.exemplo).

O outro princípio físico refere-se à aplicação de pesticidas. Neste caso o que buscamos é a formação de uma emulsão no interior da tubulação, e para que esta se forme os produtos a serem injetados precisam ter simultaneamente as seguintes características: baixa solubilidade em água com alta estabilidade; alta solubilidade solventes orgânicos (lipofílico); não corrosivos.

Estas características limitam os produtos a serem quimigados, e exigem do técnico responsável um maior conhecimento sobre os produtos principalmente quanto às suas propriedades físico-químicas (FATO!). Mesmo assim há produtos suficientes disponíveis no mercado para conduzir lavouras de feijão, milho, trigo, tomate, batata, algodão, para citar algumas, praticamente sem a entrada de pulverizador. FATO!

Vantagens da quimigação: (i) uniformidade de aplicação, não há como sobrepor barra ou pular rua, desde que a uniformidade de distribuição de água esteja correta FATO!, (ii) ativação e incorporação: herbicidas como as acetanilidas necessitam de umidade no solo para agir e outros, como a trifluralina, precisam de incorporação, ambas necessidades serão atendidas pela água de irrigação no momento da aplicação FATO!, (iii) menor compactação de solo, menor trânsito de pulverizador FATO!, (iv) menor dano a cultura (quadro) FATO!, (v) maior “janela” de aplicação;  permite aplicação noturna (maior susceptibilidade de algumas pragas) ou logo após uma chuva p.ex., aplicação no momento certo! FATO!, (vi) redução na necessidade de equipamentos de pulverização FATO!, (vii) possível redução no número de aplicações: se aplico na hora certa e no momento de maior susceptibilidade significa maior eficiência! FATO!; (viii) maior segurança ao operador (pelo menor número de recargas e nível de exposição) e ao ambiente (menor deriva) FATO! e (ix) menor custo de aplicação (veja quadro) FATO!.

 

Quadro: Custos comparativos da quimigação versus convencional por hectare para um pivô de 101ha (US$/ha) com altura manométrica de recalque de 60m e eficiência de 65% (considerada baixa).

Pivô Energia Motobomba US$ 1,11/ha
Motoredutores US$ 0,08/ha
Água US$ 0,19/ha
Depreciação US$ 0,80/ha
  TOTAL Quimigação US$ 2,18/ha
Trator + Pulverizador – TOTAL US$ 6,47/ha

 

Como limitação a técnica apresenta os seguintes aspectos: (i) conhecimento técnico específico pelo responsável FATO!, (ii) nem sempre no momento de se aplicar, a irrigação é necessária, principalmente em área de irrigação suplementar FATO!, (iii) investimento adicional em equipamentos de segurança e na bomba dosadora injetora e (iv) não é qualquer produto que pode ser aplicado. FATO!

Para que se mantenha a emulsão estável ao longo da tubulação, é preciso cuidar alguns detalhes como: a velocidade da água no ponto de injeção deve ser no mínimo de 1,5 m/s (comum na maioria dos projetos); esta velocidade proverá a energia cinética necessária a fracionar (50 a 70mm) e manter as gotículas em emulsão até o final. Se as gotas forem maiores, elas coalescerão, formando um sobrenadante (óleo na água) que sairá nos primeiros vãos causando desuniformidade na aplicação.

 


Outro ponto importante, é a posição do ponto de injeção. No Brasil o mais comum é tangenciando o tubo, o que é ERRADO, o correto é no meio do tubo preferencialmente à jusante (veja Figura), afinal o rio corre mais rápido no meio que na margem!.

Mito: os produtos são lavados pela água! Não, se tiverem as características mencionadas. A superfície da folha é cera e portanto com maior afinidade ao óleo dos produtos que são imediatamente absorvidos, além do que, sob o cone d’água do pivô há um microclima que favoresce que favorece a absorção. Outro FATO! importante é que o único método de aplicação que consegue atingir o baixeiro é via pivô, quem já precisou controlar Cercospora em milho e ou Spodoptera em algodão sabe disso.

Definitivamente, a quimigação enquanto tecnologia de aplicação precisa entrar no cálculo da viabilidade economica de um sistema de irrigação via pivô. Porém é fundamental que se diga que, se o pivô não estiver adequadamente calibrado e aferido, com boa distribuição, a chance de insucesso é muito grande. FATO!

Para fechar a discussão é importante ter claro que uma boa quimigação só é possível dentro de um programa de gestão da irrigação, pois neste caso o controle rigoroso da água aplicada permite o controle efetivo da aplicação dos produtos quimigação. Se a água já deve ser aplicada na dose certa em com excelente distribuição imagine a mesma com os importantes elementos químicos de fertilização ou de controle de doenças e pragas?

Neste sentido a IRRIGER® desenvolve um processo de conscientização entre seus mais de 200 clientes para ampliar o uso das técnicas de quimigação nos mais de 100.000 ha de áreas irrigadas por ela gerenciado no Brasil e no Sudão, pois a existência de um sistema de gestão completo da irrigação é um diferencial importante do ponto de vista de aplicação eficiente e segura da quimigação.

 

 

 

Alguns modelos de bombas dosadoras, e uma imagem do que é a dispersão de produtos no interior da tubulação no momento da injeção.

 

Distribuição desejada no interior da tubulação Bomba Hidráulica
Bomba injetora eletromagnetica, alta precisão Bomba Elétrica, membrana ou pistão
Bomba dosadora duplo pistão  

 

 

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